Diogo Braga

Certo dia eu descobri que iria ter na minha cidade um evento sobre paternidade que teria a presença ilustre de pais famosos da internet como o Marcelo e Rodrigo do Entre Fraldas e o Marcos Piangers do Papai pop. Ir a este evento me rendeu uma noite de inúmeras surpresas. Eu, que sou pai da Lílian que possui ainda 3 meses, combinei com minha esposa que retornaria pra casa às 10 horas da noite, ainda a tempo de dar banho na pequena. E fui. O evento começava às 7 horas da noite e eu cheguei no local na hora exata e a rua já estava apinhada de homens esperando a abertura das portas, como se fossem crianças atrás de doces no dia de São Cosme e Damião. Foi surpreendente ver que a discussão sobre paternidade ativa é algo que desperta tanto interesse, principalmente em um mundo hoje onde os posicionamentos políticos extremistas e conservadores estão ganhando cada vez mais força. La dentro o salão ficou apinhado de gente, por volta de 300 homens ombro a ombro, pelos roçando em pelos e olhando pro palco onde outros 5 pais começaram a responder perguntas da plateia. Um deles, cujo filho ainda nem tinha nascido, perguntou se era possível acreditar em uma educação sem a presença de uma instituição escolar tradicional. Os debatedores respondiam e a discussão acontecia, mas em um momento o mediador resolveu mudar a dinâmica e perguntou à plateia: “quem ai se acha um pai nota 10?” Um ou outro pai levantou a mão. Perguntou quem se achava um pai nota 9, novamente somente a manifestação de um ou outro gato pingado. Eu me julguei um pai nota 8, crendo estar no caminho certo, mesmo sabendo que poderia melhorar. Quando o mediador perguntou quem se considerava um pai nota 3, somente um levantou a mão. Foi a nota mais baixa que um pai se deu aquela noite. A palavra foi passada para o Marcos Piangers que foi incumbido de fazer uma pergunta pro pai nota 3. “Por quê você  se considera um pai nota 3?” Perguntou. A resposta foi um relato Surpreendente. Respondeu emocionado que era pai de um filho especial. Que amor e felicidade não são necessariamente a mesma coisa. Que o tempo demandado para cuidar de um filho com esta condição era tamanho, que sentia que não mais usufruía de momentos felizes com sua esposa, muito menos consigo. Disse que o melhor dia de sua vida de pai foi quando seu filho, já com idade avançada, começou a frequentar a escola comum. E naquele evento que, até aquele momento, tinha se desenvolvido sobre questões corriqueiras, começaram a surgir relatos sobre dificuldades reais. Dificuldades familiares profundas onde não há resposta certa, apenas debate e reflexão. A verdade é que todo mundo quer ter um filho especial no sentido de ser diferenciado, que possua uma extraordinária criatividade artística, que possua uma inteligência tamanha que o possibilite se destacar em algum campo profissional, mas ninguém reflete sobre o trabalho que é ter, de fato, um filho com uma condição médica especial. Ninguém pensa que o que um pai de um filho autista mais quer é que o filho seja comum e que frequente a escola mais corriqueira que exista. Que conviva com outras crianças, que seja aceito por elas, que possa usufruir de um ensino de uma escola tradicionalmente ordinária. Neste dia eu aprendi lições com os debates, conheci e conversei com outros pais que estão dispostos a exercer uma paternidade ativa. Às 10 horas da noite o evento estava quase acabando e eu estava morrendo de vontades de dar um abraço no Marcelo e no Rodrigo, estava morrendo de vontade de pegar um autógrafo do Marcos Piangers, mas eu fui embora pra casa antes e, graças a deus, cheguei a tempo de dar o banho na minha filha. Não fiquei chateado, porque aquela breve ausência da minha casa já tinha valido a pena, a noite tinha sido surpreendentemente positiva, saí de casa um pai nota 8, voltei um pai nota 3.